A juventude não foi feita para o prazer, mas sim para o heroísmo!

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Três caixas de ovos contra a vida e a família? Confira!


Cabo eleitoral do candidado Toninho Ferreira, PSTU, agride jovens do IPCO durante campanha de distribuição de volantes pedindo à Nossa Senhora Aparecida que livre o Brasil dos maus políticos.

Quando comunista-abortista não tem argumento(razão), apela-se para...
 Devemos está também dispostos a levar ovos pela Vida e a Família!!! Junte-se a essa Cruzada pela Família!





***
Também não deixe de mandar o seu protesto:
 
 
Você está cansado de políticos incompetentes, ladrões e desqualificados para estarem no Congresso nos representando?
Você está cansado de políticos incompetentes, ladrões e desqualificados para estarem no Congresso nos representando?
Eu estou cansado de ver lobo em pele de cordeiro pedindo o meu voto em cada eleição. E depois votando leis contrárias à minha Moral
Não quero mais ser enganado!
Se você também não quer ser enganado nessa eleições de 2014, veja aqui o que fazer.
Vamos juntos desmascarar estes lobos que querem nos engolir.

www.minhacartaaberta.com.br/candidatos2014/
Minha Carta Aberta

 

 

As eleições estão logo aí.

Muita coisa está errada? Sim. É preciso mudar nas urnas? Sim. Mas por que nós, cristãos, também não podemos nos unir em orações? A hora é agora.
É simples. Reze uma Ave Maria pelo Brasil. Sua oração se unirá a de milhões de pessoas, como uma única súplica a Deus e Nossa Senhora para que:
  • livre nosso país dos maus políticos
  • nos proteja daqueles que são contra a família e os princípios cristãos
  • as pessoas que se dispuserem a rezar automaticamente estarão rezando pelas pessoas que já rezaram também.
 
O Brasil está nas suas mãos.
A decisão é sua.

Descubra aqui o que fazer.
 
[16:25:19] João Schleder: Se você não conseguiu visualizar esta imagem, veja aqui

terça-feira, 2 de setembro de 2014

PASCENDI — a monumental encíclica que fulminou a heresia modernista (PARTE II)


Revista Catolicismo, Nº 764 (agosto/2014)

Parte II
Em 1907, São Pio X condenou o movimento modernista que se infiltrara nas hostes católicas com a finalidade de relativizar, e até mesmo deturpar, o ensinamento do magistério tradicional e infalível da Igreja e levar os católicos incautos a aceitarem os erros do mundo moderno


São Pio X
O Pontífice trabalhando em sua biblioteca particular
Certamente um dos mais importantes documentos do Papa São Pio X foi sua célebre Encíclica Pascendi Dominici Gregis, sobre as doutrinas dos modernistas, promulgada pelo Sumo Pontífice em 8 de setembro de 1907. Ela alcançou enorme repercussão no século XX e continuará ecoando ao longo da presente centúria. Em nossos dias, o movimento progressista — infiltrado nas próprias fileiras católicas — utiliza-se das mesmas táticas e espalha nos ambientes da Igreja erros condenados por São Pio X, que denunciou e estigmatizou a doutrina modernista como sendo a “síntese de todas as heresias”.
Neste centenário do falecimento do santo autor da Pascendi, oferecemos aos nossos leitores excertos especialmente marcantes dessa admirável e intrépida encíclica. Tais excertos encontram-se citados em três matérias de autoria do insigne líder católico Plinio Corrêa de Oliveira, publicadas em nossas edições de setembro, outubro e novembro de 1957. Ele transcreve trechos da Pascendi,(*) enaltece a firmeza de São Pio X, e o apresenta como modelo para o combate aos inimigos internos e externos da Santa Igreja.

A Direção de Catolicismo
*     *     * 
Denúncia da tentativa de adulterar o Magistério tradicional e infalível da Santa Igreja de Deus
 
“Esperávamos que os modernistas algum dia se emendassem. Por isto, de início, usamos em relação a eles medidas suaves, como se faz com filhos, e depois medidas severas; por fim, e muito a contragosto, empregamos repreensões públicas”
 
 
  • Plinio Corrêa de Oliveira
Catolicismo, nºs 81, 82 e 83 — setembro, outubro e novembro de 1957

São Pio X
São Pio X nos jardins do Vaticano
Se São Pio X não tivesse fulminado a heresia modernista, o mundo teria entrado rapidamente em marcha para o panteísmo e o ateísmo. E toda a ação comunista sobre a face da Terra não teria encontrado diante de si os enormes obstáculos que encontrou.
A condenação do modernismo foi, pois, um fato histórico tão importante quanto a vitória de Lepanto. E o Papa Pio XII [elevando Pio X à honra dos altares, em maio de 1954] se tornou credor do reconhecimento eterno dos homens, por lhes haver apresentado por modelo e dado por protetor um tão grande santo. […]
“Odiai o erro, amai os que erram”, escreveu Santo Agostinho. Grande, sábia, admirável sentença. Entretanto, quantas aberrações, quantas traições, quantas capitulações vergonhosas se têm abusivamente cometido em nome dela!
Há pessoas cândidas — ou covardes — que imaginam as ideias como entes dotados de existência física própria e autônoma, os quais se incubariam misteriosamente nas pessoas. Segundo elas, pode-se mover guerra às ideias sem atacar as pessoas, mais ou menos como se pode combater a doença infecciosa sem atingir o doente, pois a guerra é tão somente contra o bacilo.
Este modo de ver, infelizmente muito generalizado em nossos dias, beneficia largamente nossos adversários, pois desarma toda a nossa reação.
A verdade e o erro não são algo de extrínseco ao espírito humano, como as fichas na gaveta de um fichário. A inteligência, pelo contrário, tende a assimilar este e aquela, por um processo que tem sido merecida e frequentemente comparado à digestão. Se alguém come pão ou carne, a digestão incorpora ao organismo uma parcela da substância desses alimentos, que ficam fazendo parte da pessoa. Analogamente, se alguém aceita uma doutrina, esta de tal maneira pode chegar a marcar sua personalidade, que se diria figurativamente que tal homem personifica aquela ideia. Como pretender destruir o pão já digerido por uma pessoa, sem ferir esta última em sua carne? E como se pode atacar uma ideia sem atingir em certa medida quem a personifica, quem ipso facto lhe dá vida, atualidade e possibilidades de difusão?
Não. A sentença de Santo Agostinho é de sentido óbvio. Ela preceitua que desejemos a humilhação e a derrota do erro, bem como a conversão e a salvação de quem erra. Ela recomenda que usemos, para com quem erra, de toda a suavidade possível. Ela não nos proíbe de utilizar, contra aquele que erra, uma justa severidade, quando isto se torna necessário para o bem da Igreja e a salvação das almas. Nesse sentido, não chega aquela sentença ao ponto de inutilizar no católico a capacidade de ação e de luta contra os autores do erro ou do mal. Muito pelo contrário, os santos souberam sempre conciliar as duas obrigações fundamentais e aparentemente contraditórias, de amar o próximo e de o combater, quando a isto impele o zelo pela glória de Deus e pela salvação das almas.
É disto que nos deu admirável exemplo o Papa São Pio X na Encíclica Pascendi, contra o modernismo, com o monumento de objetividade e lucidez que é aquele imortal ato pontifício.

São Pio X desmascarou os erros e os seus fautores
Enganar-se-ia quem supusesse que a Pascendi foi um mero documento doutrinário. São Pio X não combateu apenas no campo das ideias, mas, com admirável energia e perspicácia, desmascarou os próprios fautores do erro; e traçou o lamentável perfil moral do modernista, denunciou suas táticas e pôs a nu a vastidão de sua conspiração. A Encíclica não menciona nomes, mas é riquíssima em dados sobre a personalidade do modernista. Em outros documentos, São Pio X chegou aos nomes. Por exemplo, nos importantes decretos em que foram nominal e pessoalmente atingidos os principais chefes do movimento.
É para que nossos leitores possam medir em toda a sua admirável extensão a severidade com que o Santo Pontífice se houve nesta emergência, que consagramos ao assunto este artigo.
Fazendo-o, chamamos a atenção para a oportunidade flagrante do exemplo que apontamos. São Pio X foi beatificado e mais tarde canonizado pelo Santo Padre Pio XII. Quis ele que seu antecessor servisse de modelo para os homens, e não para os mortos que jazem na sepultura ou para as crianças que ainda estão por nascer. Foi para isto que ele fez brilhar na honra dos altares esse grande luzeiro.
Agir como São Pio X, eis o que nos recomenda com sua suprema autoridade o imortal Pontífice Pio XII. [...]

São Pio X
Suplemento de revista italiana noticia a condenação do modernismo por São Pio X
Os “modernistas” rejeitaram submeter-se à autoridade
         Os modernistas representam o sumo da obstinação, e com eles são inúteis as medidas brandas: “Esperávamos que os modernistas algum dia se emendassem. Por isto, de início, usamos em relação a eles medidas suaves, como se faz com filhos, e depois medidas severas; por fim, e muito a contragosto, empregamos repreensões públicas. Não ignorais, Veneráveis Irmãos, a esterilidade de Nossos esforços: eles curvam por momentos a cabeça, para a levantar novamente com orgulho ainda maior”.
Uma das raízes mais importantes deste lamentável estado de espírito, com efeito, é o orgulho:
“O orgulho! Ele está, na doutrina dos modernistas, como em sua própria casa; aí encontra ele por toda parte algum alimento, e se expande então em todos os seus aspectos. Orgulho, por certo, esta confiança em si mesmos, que os leva a se erigirem em regra universal. Orgulho, essa vanglória que os apresenta a seus próprios olhos como os únicos detentores da sabedoria; que os leva a dizer, arrogantes e repletos de si mesmos: não somos como os outros homens; e que, para realmente não serem como os outros, os impele às mais absurdas novidades. Orgulho, o que os faz repelir toda sujeição e os leva a uma conciliação da autoridade com a liberdade. Orgulho, essa pretensão de reformar o próximo, esquecendo-se de si mesmos; essa absoluta falta de consideração para com a autoridade, inclusive a autoridade suprema. Não, realmente, nenhum caminho há que conduza mais rápida e diretamente ao modernismo do que o orgulho. Que nos deem um leigo, ou um sacerdote, que tenha perdido de vista o princípio fundamental da vida cristã — a saber, que devemos renunciar a nós mesmos, se queremos seguir Jesus Cristo — e que não tenha extirpado de seu coração o orgulho: esse leigo, esse sacerdote estará maduro para todos os erros do modernismo. Eis por que, Veneráveis Irmãos, vosso primeiro dever é resistir a esses homens soberbos, e empregá-los em funções ínfimas e obscuras: que sejam postos tanto mais baixo quanto mais alto pretendam subir, e que seu próprio rebaixamento lhes tire a ocasião de fazer mal”. [...]

“Vítimas do erro que arrastam os outros ao erro”
Nascida dessa curiosidade malsã, a mania das novidades, o horror à tradição é uma das notas características do modernismo.
Por isto é que, pensando o Santo Papa Pio X nos modernistas –– que qualifica, com palavras da Escritura, de “homens de linguagem perversa, dizedores de novidades e sedutores, vítimas do erro que arrastam os outros ao erro” –– lamenta-se de que “cresceu estranhamente nestes últimos tempos o número dos inimigos da Cruz de Jesus Cristo que, com uma arte absolutamente nova e soberanamente pérfida, se esforçam por anular as energias vitais da Igreja, e até mesmo, se pudessem, por subverter inteiramente o reino de Jesus Cristo”. [...]
Os modernistas, como tantos protestantes, odeiam a pompa esplêndida do culto católico. Eis sua razão: “Do momento em que seu fim é todo espiritual, a autoridade religiosa se deve despojar de todo aquele aparato externo, de todos aqueles ornamentos pomposos, pelos quais ela como que se dá em espetáculo”. [...]
Percorrendo o quadro psicológico que do modernista pinta São Pio X, fica-se admirado com a franqueza de sua linguagem, com a clareza, a energia e a precisão de seus conceitos. É bem de ver que, se outrem que não um Papa — e que Papa! — assim se exprimisse, abriria flanco a que os liberais, cujos matizes são tão numerosos em nossa população, e infelizmente existem até nos círculos católicos, tivessem a impressão de que se está exagerando. [...]
 
No âmago da própria Igreja, a infiltração dos inimigos
É natural que, movidos por sua febre de novidades, os modernistas também se tenham lançado contra todas as boas tradições cristãs. [...]
Acrescenta o Papa: “O que exige, principalmente, que falemos sem tardança, é que os artífices de erros não devem ser procurados hoje entre os inimigos declarados. Eles se ocultam –– e nisto está um título de apreensão e de angústia muito particular –– no próprio seio e no coração da Igreja, inimigos tanto mais temíveis quanto menos declarados. Falamos, veneráveis Irmãos, de grande número de católicos leigos –– e, o que é mais deplorável, de padres –– que, sob o pretexto de amor à Igreja, absolutamente falhos de filosofia e de teologia sérias, impregnados, pelo contrário, até a medula dos ossos, de um veneno de erro haurido entre os próprios adversários da fé católica, se inculcam, com desprezo de toda modéstia, como renovadores da Igreja. Esses tais, em falanges cerradas, dão audacioso assalto a tudo quanto há de mais sagrado na obra de Jesus Cristo, sem respeitar sua própria Pessoa, que tentam rebaixar, por uma temeridade sacrílega, até o nível da simples e pura humanidade.
“Estes homens se espantarão de que os inscrevamos entre os inimigos da Igreja. Ninguém terá surpresa diante disso, com algum fundamento, quando — pondo de lado suas intenções, cujo julgamento está reservado a Deus — examinar suas doutrinas e, em função delas, seu modo de falar e de agir. Inimigos da Igreja, certamente eles o são; e ninguém se afasta da verdade dizendo que são dos piores. Não é de fora, com efeito — já o notamos — mas é principalmente de dentro que os modernistas tramam a ruína da Igreja; o perigo está hoje quase nas entranhas mesmo e nas veias da Igreja: seus golpes são tanto mais seguros quanto eles sabem melhor onde lançá-los”. [...]
“Não tendo horror de caminhar nas pegadas de Lutero”
Conforme a fundamental duplicidade de seu espírito, os modernistas têm toda uma tática especial para disseminar os seus erros, dando-lhes aparência de verdades atraentes e simpáticas.
Essa tática, São Pio X a descreveu admiravelmente: “O que projetará maior luz ainda sobre essas doutrinas dos modernistas é sua conduta, que é inteiramente coerente com suas doutrinas. Ao ouvir os modernistas, ao ler os seus trabalhos, ter-se-ia a tentação de acreditar que eles caem em contradição consigo mesmos, que são oscilantes e indecisos. Longe disso: tudo é pesado, tudo é desejado entre eles, mas à luz do princípio de que a fé e a ciência são estranhas uma à outra. Tal passagem de seus trabalhos poderia ser assinada por um católico; voltai a página, e tereis a impressão de ler um racionalista. Escrevendo história, nenhuma menção fazem da divindade de Jesus Cristo; subindo à cátedra sagrada, proclamam-na alto e bom som. Historiadores, desprezam os Padres e os Concílios; catequistas, citam-nos com honra. Se prestardes atenção, há para eles duas exegeses inteiramente distintas: a exegese teológica e pastoral, a exegese científica e histórica. Do mesmo modo, em virtude desse princípio de que a ciência não depende da fé, sob nenhum ponto de vista, se eles dissertam sobre a filosofia, a história, a crítica, ostentam de mil modos — não tendo horror de caminhar assim nas pegadas de Lutero — seu desprezo pelos ensinamentos católicos, pelos Santos Padres, pelos Concílios universais, pelo Magistério eclesiástico; advertidos sobre esse ponto, lançam brados de protesto, queixando-se amargamente de que se lhes viola a liberdade. Enfim, dado que a fé é subordinada à ciência, repreendem a Igreja — abertamente e em toda ocasião — pelo fato de que Ela se obstina em não sujeitar e não acomodar seus dogmas às opiniões dos filósofos”. [...]

Para melhor inocular o veneno: a tática da dissimulação
Os modernistas agem dentro da Igreja como verdadeira quinta coluna, pois, segundo é de toda evidência, sua intenção consiste em conservar o aspecto de católicos, para mais facilmente disseminar nas próprias fileiras católicas a peçonha de seus erros.
Infelizmente, como sempre acontece, existe uma terceira força para facilitar a ação dessa quinta coluna. Essa terceira força é formada por aqueles católicos, quiçá bem intencionados, que, por um excessivo desejo de conciliação, ou pelo temor de parecerem atrasados, retrógrados ou reacionários, adotam em sua linguagem, em suas atitudes, em toda a linha de sua conduta, uma orientação que, se não é diretamente modernista, facilita o deslizar perigoso dos espíritos para essa heresia.
Foi o que com muita finura observou o Santo Pontífice: “O que é muito estranho é que católicos, que sacerdotes, dos quais queremos pensar que tais monstruosidades lhes fazem horror, se comportem entretanto, na prática, como se as aprovassem plenamente; é muito estranho que católicos, que sacerdotes, tributem tais louvores, prestem tais homenagens aos corifeus do erro, que se tem a impressão de que desejam honrar por esta forma, não os homens em si mesmos, talvez não de todo indignos de alguma consideração, mas os erros que tais homens abertamente professam, e dos quais se arvoraram em campeões”. [...]
 
Pertinácia dos “modernistas” para iludir as hostes católicas
São Pio X
Na França difunde-se a encíclica contra os erros do modernismo
Muito bem organizados do ponto de vista da propaganda, os modernistas se aliam no mundo inteiro, para o efeito de difundir melhor as suas doutrinas.
“Não se pode deixar de sentir estranheza e surpresa diante do valor que certos católicos lhe atribuem [à crítica modernista]. Para isto há duas causas: de um lado, a aliança estreita que fizeram entre si os historiadores e críticos da escola modernista, por cima de todas as diversidades de nacionalidade e de religião. De outro lado, a audácia sem limites desses mesmos homens: que um dentre eles abra seus lábios, e os outros aplaudirão a uma voz, elogiando o progresso que comunica à ciência; se alguém tem a infelicidade de criticar uma ou outra de suas novidades, por monstruosa que seja, em fileiras cerradas os modernistas investem contra ele; quem nega suas doutrinas é tratado de ignorante, quem as adota e defende é elevado às nuvens. Muitos que, iludidos com isto, se inclinam para os modernistas, recuariam de horror se o percebessem”.
Como tantas vezes acontece com os hereges, os modernistas têm um ardente espírito de proselitismo:
“Se, pelo menos, tivessem menos zelo e menos atividade em propagar seus erros! Mas tal é neste particular seu ardor, tal sua pertinácia no trabalho, que não se pode considerar sem tristeza como despendem, em arruinar a Igreja, energias magníficas que seriam tão aproveitáveis se fossem bem empregadas. Seus artifícios para iludir os espíritos são de duas maneiras: esforçar-se por afastar os obstáculos que lhes causam transtorno; depois procurar, com cuidado, pôr em movimento, ativa e pacientemente, tudo que lhes possa ser útil”.
“Os modernistas se apoderam das cátedras nos seminários, nas universidades, e as transformam em cátedras de pestilência. Disfarçadas talvez, suas doutrinas são semeadas por eles do alto dos púlpitos sagrados; professam-nas abertamente nos congressos; fazem-nas penetrar e as põem em voga nas instituições sociais. O fruto de tudo isto? Nosso coração se sente apertado ao ver absolutamente transviados tantos jovens que eram a esperança da Igreja, e que lhe prometiam tão bons serviços. Outro espetáculo ainda Nos contrista: é que tantos outros católicos, não indo certamente tão longe, entretanto têm tomado o hábito, como se tivessem respirado um ar contaminado, de pensar, de falar e de escrever com mais liberdade do que convém a católicos”.

Tentativa de enfraquecer a doutrina tradicional da Igreja
“Os modernistas se empenham em minimizar o Magistério eclesiástico e em lhe enfraquecer a autoridade, seja desnaturando sacrilegamente sua origem, seu caráter e seus direitos, seja reeditando contra ele, do modo mais livre do mundo, as calúnias dos adversários. Ao clã modernista se aplica o que Nosso Predecessor Leão XIII escrevia, com dor na alma: A fim de atrair o desprezo e o ódio sobre a Esposa mística de Cristo, na qual está a verdadeira luz, os filhos das trevas têm o hábito de lhe atirar, à vista dos povos, uma calúnia pérfida [...]. Depois disto, não há motivo para que alguém se espante se os modernistas perseguem com toda a sua malevolência, com toda a sua acrimônia, os católicos que lutam vigorosamente pela Igreja. Não há espécie de injúrias que não vomitem contra eles: a de serem ignorantes e obstinados é a preferida. Se se trata de adversário temível por sua erudição e vigor de espírito, os modernistas procuram reduzi-lo à impotência, organizando em torno dele a conspiração do silêncio. Conduta tanto mais censurável quanto ao mesmo tempo, sem fim nem medida, esmagam sob seus elogios quem se coloca de seu lado. Quando aparece um trabalho, desde que por todos os poros se deixe notar nele o desejo das novidades, os modernistas o acolhem com aplausos e exclamações de admiração. Quanto mais um autor tiver mostrado audácia em atacar o venerável edifício da Antiguidade, em solapar a tradição e o Magistério eclesiástico, tanto mais será tido por sábio”. [...]

Causa maior dano o erro que se infiltra no interior da Igreja
Com essas citações, concluímos a descrição do perfil moral do modernista e dos seus métodos de ação, segundo a Encíclica Pascendi. Por esta forma, rendemos ao imortal Pontífice Pio X nossa homenagem, cheia de gratidão pelos benefícios que prestou à Santa Igreja ferindo gravemente, com intrepidez angélica, este terrível inimigo da Religião Católica.
Nossa insistência a este respeito foi motivada por uma circunstância especial. Hoje em dia, para o comum dos fiéis, mesmo para os de alguma cultura religiosa, o erro só pode existir fora da Igreja. Em outros termos, o erro é adotado pelos que professam religiões falsas ou pelos que não professam nenhuma religião. Ele deve ser procurado e alvejado nas fileiras dos protestantes, dos espíritas, dos comunistas. Mas haveria perigo, haveria falta de caridade, haveria temeridade, em procurá-lo nas hostes católicas. Nestas, pelo contrário, só a verdade poderia florescer. E a ideia de procurar algum erro de doutrina em obras de escritores católicos poderia parecer, a esse público, singular, estranha, nascida de suspicácias infundadas e antipatias pessoais.
Na realidade, vimos como São Pio X nos mostra a existência, em seu tempo, de poderosa corrente de erros vicejando no próprio seio da Santa Igreja, e não apenas nas seitas heréticas ou cismáticas, ou entre os racionalistas. No tempo do Santo Papa, esta vasta coorte de católicos transviados estava intimamente ligada aos adversários externos da Religião, articulada de maneira a, protegida por uma falaciosa aparência de catolicidade, difundir o erro nas próprias fileiras católicas. Trabalho terrível de quinta coluna, que fazia com que o mal se apresentasse disfarçado sob o aspecto mais simpático e mais agradável. [...]
É esta uma constante dentro da vida da Igreja. Com efeito, não é raro que, aparecendo uma heresia, seus fautores procurem, quanto podem, tomar aparência de ortodoxos, permanecendo durante o maior tempo possível nas fileiras católicas para mais facilmente arrastar as almas. Em geral, é necessário um esforço terrível para que o erro seja apontado, caracterizado, reconhecido e expulso do redil. [...]
 
Pode-se confiar nos lobos ocultos sob peles de ovelhas?
Como se sabe, a corrente jansenista que se difundiu por toda a Europa nos séculos XVII e XVIII, e em certa medida no século XIX, era, em essência, um calvinismo disfarçado. Seus partidários, homens muitas vezes insignes por sua erudição, tendo apoios e simpatias entre altos dignitários eclesiásticos, dispondo do apoio também de chefes de Estado e de políticos eminentes, exímios na arte de esconder a peçonha dos erros sob a aparência de austeridade, de zelo e de talento, conseguiram perturbar durante séculos inteiros a vida da Cristandade. Ocultando suas doutrinas heréticas sob uma linguagem agradável, atraíram a simpatia de pessoas que teriam horror a qualquer espécie de heresia. Foi necessária uma luta terrível para extirpar da Santa Igreja esse veneno tremendo. E, em consequência dessa luta, se debilitaram as forças católicas, se aniquilaram energias que poderiam ter sido utilizadas com admirável eficácia no combate ao racionalismo. Mais ainda, os partidários da doutrina ortodoxa, muitas vezes desacreditados pelas calúnias jansenistas, ficaram na impossibilidade de prestar à Igreja todos os serviços que de outro modo lhe teriam podido prestar. [...]
Desta situação amarga participou a própria Santa Sé. Várias vezes os Romanos Pontífices denunciaram o erro. Mas sempre conseguiram os jansenistas, servidos por uma tática muito eficiente, fazer aceitar por numerosos fiéis a ideia de que essas condenações não passavam de atitudes políticas tomadas sob a deplorável pressão de conjunturas humanas, e não eram atos de magistério movidos pelo puro zelo da causa de Deus. O que explicava que muitas pessoas, duvidando dos verdadeiros Pastores da Igreja e deitando toda a sua confiança nos lobos ocultos sob peles de ovelhas, se deixassem persuadir de que as disposições da Santa Sé a respeito do jansenismo não deviam em consciência ser aceitas pelos católicos.
A divisão que o jansenismo causou entre os fiéis, a dispersão de esforços, a confusão, favoreceram na realidade a Revolução Francesa. Outra poderia ter sido a reação dos católicos do século XVII, e particularmente do século XVIII, se permanecessem unidos na verdadeira doutrina ortodoxa: teriam combatido de frente os erros monstruosos da Enciclopédia, que se prepararam, se enunciaram, e depois foram difundidos por toda a Europa. Tal não se deu. O enciclopedismo, encontrando nos próprios arraiais católicos o terreno preparado pelos desvios do jansenismo, se propagou livremente. E daí nasceu o terrível cataclismo que foi a Revolução Francesa.
Este aspecto do quadro ideológico e político do século XVIII merece particular atenção. Costumam os historiadores afirmar simplesmente que o enciclopedismo, servido por escritores eminentes, de grande talento, conseguiu conquistar a Europa. Seria o caso de perguntar por que esta conquista não encontrou reação, ou por que a reação oposta à conquista foi tão fraca, que praticamente não pôde evitar o mal. A debilidade dessa reação foi devida, em grande parte, à circunstância já apontada: a desordem imensa introduzida nas fileiras católicas pelo jansenismo, o prejuízo causado à vitalidade da Igreja pela difusão, em seu seio, de uma heresia tão perigosa.

Semelhança com a crise atual: erro dissimulado entre católicos
O modernismo foi condenado no início do século XX. A atualidade do exemplo histórico que
São Pio X
Canonização de São Pio X por Pio XII em 1954
acabamos de evocar, entretanto, ainda é grande.
Nos documentos pontifícios, não é raro encontrarmos alusões paternalmente tristes e severas a respeito de erros que circulam entre os fiéis. Esses erros podem renovar nas hostes católicas todos os inconvenientes que produziram no começo deste século, sob a forma do modernismo; ou anteriormente, sob a forma do jansenismo.
Nós mesmos nos encontramos também nas vésperas de um imenso cataclismo, a cuja iminência é inútil fechar os olhos. [...] Nessas condições, importa soberanamente que todos os católicos, atentos à grande voz e ao grande exemplo do Papa Pio X, que Pio XII elevou à honra dos altares para nos servir de intercessor e de luz, saibam orientar-se quanto ao dever da hora presente.
Este dever consiste, certamente, em combater os inimigos externos da Igreja com todo o zelo e com todo o afã. Mas ele não para aí. Também consiste em ter os olhos voltados para os problemas internos da Santa Igreja de Deus, com a convicção de que eles podem constituir embaraço dos maiores; e com uma franca compreensão para com aqueles que, de modo todo particular, se dedicam à análise e à solução desses problemas.
 
Combater o erro que possa serpear dentro do redil católico
Quantas e quantas vezes, ao percorrerem as várias edições desta folha, leitores houve que fizeram a pergunta: por que combater erros existentes entre fiéis, quando há tantos outros a serem combatidos fora das fileiras católicas, mais claros, e portanto mais perigosos? A esta pergunta tão frequente, a Encíclica Pascendi oferece magnífica resposta: o erro interno é sempre mais perigoso que o erro externo, a divisão das forças é sempre mais perigosa que qualquer adversário. E para fazer cessar a divisão das forças, o essencial é que todos lutem em torno de uma só bandeira. O essencial é que tenham todos a mesma doutrina. O essencial é que a circulação sub-reptícia do erro não divida os espíritos, não divida os corações, não divida as energias.
O modo verdadeiro de realizar a união entre os católicos não consiste em calar diante do erro que possa serpear dentro do redil. A tática acertada consiste em combater de frente tal erro, para que, unidos todos os católicos em torno de um mesmo ideal, sob a autoridade suprema e amorosa do Romano Pontífice, guiados pelos seus bispos e legítimos pastores, possam manter acesa e finalmente vitoriosa a grande luta pelo triunfo da Igreja, da civilização cristã, contra o materialismo, o panteísmo, a irreligião, o socialismo, o comunismo e todas as formas da Revolução.
 
_________
(*) Os trechos transcritos dos mencionados artigos de Catolicismo sofreram apenas pequenas adaptações. Os entretítulos são desta Redação e as frases entre aspas foram extraídas da própria Encíclica Pascendi, publicada em francês no volume III dos Atos de Pio X, edição Bonne Presse, Paris.

Fonte: Catolicismo, Agosto de 2014.

domingo, 31 de agosto de 2014

Centenário de falecimento do Papa São Pio X — PARTE I


Revista Catolicismo, Nº 764 (agosto/2014)

 
São Pio X no início de seu pontificado em 1903
São Pio X no início de seu pontificado em 1903
O glorioso Pontífice da Sagrada Eucaristia, do Catecismo,
do Direito canônico e do Canto gregoriano, que combateu destemidamente a heresia modernista

Por ocasião dos 100 anos do falecimento de São Pio X, Catolicismo dedica ao imortal Pontífice a matéria principal desta edição, reproduzindo a seu respeito textos da lavra de Plinio Corrêa de Oliveira, inspirador e durante várias décadas principal colaborador de nossa revista.
Prestamos assim um preito de gratidão ao Sumo Pontífice que agiu em tudo conforme seu admirável lema Restaurar todas as coisas em Cristo, e cujo centenário deveria ser recordado pelos católicos do mundo inteiro.
Falecido em 20 de agosto de 1914, o 259º sucessor de São Pedro foi solenemente elevado à glória dos altares pelo Papa Pio XII em 1954.
São Pio X exerceu seu pontificado de 1903 a 1914 — até o ano, portanto, da Primeira Guerra Mundial —, numa época fortemente contagiada pelo liberalismo anticlerical e, por isso mesmo, de muitos combates desse Vigário de Cristo contra os inimigos externos e internos da Igreja.
Dentre estes últimos destaca-se o movimento modernista, precursor do progressismo católico de nossos dias, que visava adaptar a Igreja ao espírito e aos erros do mundo moderno, infectar com tais desvios os ambientes sagrados, e levar os católicos a acomodarem-se a esses erros.
Mesmo em meio a tão árduas lutas, São Pio X fortaleceu extraordinariamente a Santa Igreja e incrementou de modo vigoroso a piedade católica.
Quando assistimos perplexos às calamidades de nossa época, tão semelhantes às enfrentadas pelo insigne Pontífice, voltemos para ele nossos olhares, pois além de ser especial intercessor junto a Deus, constitui para nós o melhor exemplo e incentivo para resistir sempre no bom combate dos presentes dias. É o que passaremos a expor por meio dos textos que a seguir transcrevemos.

A Direção de Catolicismo
 
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Significação essencial de um grande pontificado

A vida de São Pio X foi uma preparação providencial para assumir a Cátedra de São Pedro. Vigário de Riese, cônego em Treviso, bispo de Mântua, Patriarca de Veneza, na Itália, conheceu ele o ministério das almas nos seus vários níveis e aspectos. Assim, adquiriu uma visão de conjunto sumamente adequada para quem exerceria a direção suprema de todos os Pastores e de todos os rebanhos.

Plinio Corrêa de Oliveira
Catolicismo, nº 47 — novembro de 1954

Padre José Sarto, recém ordenado sacerdote, 1858
Padre José Sarto, recém ordenado sacerdote, 1858
De há muito se faz sentir no público brasileiro a necessidade de uma apresentação da figura de São Pio X em todos os seus aspectos, e numa perspectiva de conjunto que ponha em evidência a mútua conexão, a devida hierarquia de natureza e fins, e a harmoniosa unidade que entre esses aspectos existe.
Até certo ponto, na retina mental do povo, há “vários” Pio X. Alguns vêm nele tão somente o taumaturgo com as cãs nimbadas por uma auréola de santidade, a distribuir bênçãos milagrosas nas nobres galerias do Vaticano. Outros, ancião cheio de doçura, absorto inteiramente no aprimoramento da instrução catequética e da piedade eucarística das crianças. Os artistas consideram nele exclusivamente o restaurador da música sacra. Certas pessoas piedosas tanto se impressionam com sua vida interior que o imaginam como uma alma unicamente contemplativa, tanto mais que, fora da Itália, seu apostolado pessoal intenso perdeu-se algum tanto na memória das massas. As pessoas mais particularmente chamadas para a luta tendem por vezes a não considerar em Pio X senão o Anjo de espada de fogo, que infligiu ao modernismo a maior derrota que este até hoje sofreu, e opôs um dique vitorioso à arremetida anticlerical na França.
Ora, a maior glória de São Pio X não está em ter sido o Anjo da Guarda da humanidade de seu tempo ou o taumaturgo admirável do Vaticano, ou o Papa da Eucaristia, etc., mas em ter sido tudo isto a um tempo, de modo eminente, realizando em sua pessoa e em sua obra uma variedade de aspectos desconcertante por sua riqueza e contudo sumamente harmoniosa. A consideração detida deste ponto dá-nos o conhecimento exato de quem foi Pio X, e abre vistas para uma noção equilibrada e altamente proveitosa do que seja a santidade, e a própria missão da Igreja.

As grandes linhas biográficas
O futuro Pio X nasceu em de junho de 1835, de pais muito pobres, João Batista Sarto e Margarida Sanson, num lugarejo insignificante denominado Riese, antiga Marca de Treviso (Itália). No dia imediato, foi batizado com o nome de José. Crismado aos 10 anos, foi admitido à Sagrada Comunhão aos 12. Em 1850, entrou no seminário de Pádua, onde foi recebendo sucessivamente as Ordens menores e maiores até 1858, ano em que recebeu o Presbiterato. Nomeado logo depois capelão de Tombolo e em 1867 pároco de Salzano, foi promovido a cônego de Treviso em 1875, acumulando estas funções com as de chanceler da diocese e diretor espiritual do seminário. Em 1884, aos 49 anos pois, foi eleito bispo de Mântua, e nessa sede recebeu em 1893 o cardinalato como prêmio de seus altos méritos. No mesmo ano, viu-se elevado a Patriarca de Veneza. Em 1903, o Conclave reunido para a escolha do sucessor de Leão XIII o elegeu para o Sumo Pontificado. José Sarto tomou então o nome de Pio X. Tinha 68 anos e governou a Igreja até sua morte, ocorrida aos 79 anos, em 20 de agosto de 1914.
Como se vê, foi uma carreira brilhante, que levou José Sarto, por todos os degraus intermediários, da pobre vivenda de Riese aos esplendores do Vaticano.
Esta carreira lhe deu ocasião de exercer o múnus sacerdotal nas mais variadas situações, vendo os problemas de apostolado em todas as perspectivas, tomando contato com eles em todos os níveis da cura de almas, desde coadjutor de aldeia a Pontífice Romano, e passando por funções delicadas, não só como a de chanceler de bispado, mas ainda como a de diretor espiritual de seminário, delicada dentre as mais delicadas.
É, como se vê, uma incomparável preparação para o Papado.

O sentido profundo de uma vida
Confrontando-se na obra do Padre Dal Gal, as atividades do santo em cada uma destas etapas, nota-
Padre José Sarto, recém ordenado sacerdote, 1858
Bispo de Mântua, 18885
se que são substancialmente as mesmas da etapa anterior, transpostas apenas para campo mais vasto. Dir-se-ia uma mesma melodia executada com força e harmonia crescentes, até cobrir com seus acordes toda a superfície da Terra. As notas desta melodia espiritual — isto é, os mais altos conceitos sobre a Igreja, a ação da Providência no governo das almas e na direção dos acontecimentos terrenos, a santidade sacerdotal, a difusão do bem e a repressão do mal como aspectos do grande prélio da Igreja militante — em essência não são muitas. Seu valor vem da incomparável beleza de cada uma, da harmonia que reina entre todas. A verdadeira música não se faz com muitos sons de mero efeito, mas com o desenvolvimento de melodias simples, harmônicas, belas.
Poderíamos talvez enunciar assim as linhas mestras que nos foi dado notar na obra fecunda do grande Papa:
Chegada do novo Patriarca de Veneza em 24-11-1894
Chegada do novo Patriarca de Veneza em 24-11-1894
Por sua própria razão de ser, o sacerdote ou o bispo, quer na sua vida pessoal, quer no exercício do seu ministério, deve estar intimamente unido a Nosso Senhor Jesus Cristo e ocupado em Lhe fazer a vontade irrestritamente, incondicionalmente, sem pusilanimidade nem meios termos. Portanto, oração, meditação, mortificação, antes de tudo. Mutatis mutandis, o mesmo se deve dizer dos religiosos, e dos apóstolos que nas fileiras do laicato auxiliam a Sagrada Hierarquia. De onde deve merecer lugar primordial tudo quanto se refere ao afervoramento da piedade, quer entre os fiéis, quer entre religiosos e sacerdotes.
A Sagrada Eucaristia e Nossa Senhora sendo respectivamente fonte e canal das graças necessárias para tal, é da mais alta importância incentivar e desenvolver a devoção que Lhes têm os fiéis. O culto público da Igreja, celebrado com gravidade e decoro é meio indispensável e muito eficaz para a santificação das almas. Convém pois interessar nele os fiéis, para o que é muito importante o incentivo da boa música sacra, e a eliminação das músicas profanas, teatrais, indecorosas, que infelizmente haviam invadido o santuário.
A formação piedosa não pode deixar de se basear sobre uma instrução religiosa séria, embora
Chegada do novo Patriarca de Veneza em 24-11-1894
Chapéu cardinalício de São Pio X
proporcionada ao grau de cultura de cada fiel. Todas as formas de alta instrução religiosa — estudos de filosofia escolástica, investigações históricas e bíblicas profundas, etc. — são de se aplaudir e desenvolver. Mas devem pressupor o conhecimento exato do catecismo, sem o que todo o edifício cultural católico carece de base. Ademais, sem o conhecimento do catecismo, todo o apostolado e toda a apologética são vãos. Como propagar uma verdade que não se conhece? E como atacar o erro, quando se ignora a verdade? De onde ampla, amplíssima divulgação catequética para crianças e também para adultos.
Com a piedade, a instrução religiosa e a mortificação reinando em seus muros, com membros inteiramente dóceis ao Papa — docilidade que é a pedra de toque de toda formação verdadeira — as falanges católicas, trilhando sempre as vias da perfeição que são as vias da Providência, podem contar com o apoio de Deus. E por isto devem atirar-se animosamente — cada qual segundo sua vocação — às fainas do apostolado. Por entre borrascas, abismos e aparentes desastres talvez, Deus as conduzirá à vitória.
Este apostolado há de ser inteligente e heroico. Inteligente, há de supor em seus planos um conhecimento minucioso da época e do lugar em que atua, um emprego refletido e ágil dos métodos de ação adequados às circunstâncias, grande envergadura e até certo arrojo no formar os desígnios, muita prudência nos meios, penetração religiosa profunda em todos os setores e classes da sociedade. Heroica, há de acarretar a renúncia a todas as vantagens pessoais, e implicará no destemor em face de todas as inimizades e de todos os riscos.
A esmola é um dos graves deveres dos católicos.
O zelo do apóstolo não pode estar alheio à esfera da política, para proteger os direitos da Igreja. Assim, sempre que haja questões de ordem religiosa ou moral a tratar na política, os católicos ali devem estar, unidos e disciplinados.
Para que a atividade da Igreja seja livre de tropeços interiores, cumpre que suas leis, sabiamente proporcionadas às necessidades dos tempos, sejam conhecidas, amadas e obedecidas por todos.
A ação pessoal do apóstolo sobre as pessoas com quem tem contato é do maior proveito. Em São Pio X sua eficácia atingiu frequentemente as raias do milagroso. Tal eficácia, aliás, não resulta de se velar a verdadeira doutrina, nem das concessões impossíveis, mas da atração da verdade, do bem e da graça.
O combate ao erro e ao mal não compendia em si toda a atividade da Igreja, como a clínica e a cirurgia não são os únicos cuidados que devemos a nosso corpo. Melhor é evitar as doenças por uma vida metódica e sã. Mas quando a doença apesar de tudo se manifesta, cumpre enfrentá-la por todos os modos. Assim, melhor é prevenir o aparecimento do erro e do mal, pregando a verdade, aproximando as almas dos sacramentos, fazendo-as amar a virtude e a mortificação, do que reprimir os desatinos em que por nosso triste descuido possam cair. Mas se o erro e o mal se mostrarem persistentes é preciso agir contra eles. São Pio X deu todos os exemplos da admirável bondade e da energia com que neste combate se deve lutar.
É interessante analisar a continuidade da obra grandiosa de São Pio X em cada cargo que ocupou, à luz destes princípios em que se enfeixam — pelo menos de modo geral — os seus meios para a realização de seu lema admirável: Instaurare omnia in Christo (Restaurar todas as coisas em Cristo).
 
Importância que São Pio X deu ao catecismo
São Pio X
Audiência no Pátio de São Dâmaso, 1903
Este ponto merece no Brasil relevo especial, pois precisamos de catecismo em todos os graus. Muito tem sido feito, mas muito ainda há que fazer para o desenvolvimento catequético primário. Não menos importante talvez é o desenvolvimento do ensino da Religião no curso secundário. Mas isto não basta. Precisamos trabalhar por que se dissipe o triste preconceito de que o catecismo é apenas para crianças. Nenhum católico de nível cultural universitário pode sentir-se em dia com sua consciência, se não tiver uma formação catequética correspondente.
José Sarto foi o aluno mais vivo e esforçado do curso de catecismo que seguiu em sua Paróquia natal. Com a vivacidade que conservou até os últimos dias, seguia as explicações do pároco, ao qual dava respostas por vezes surpreendentes. “Darei uma maçã a quem me diga onde está Deus”, disse certa vez o zeloso sacerdote. E o pequeno José lhe respondeu ato contínuo: “Pois eu lhe darei duas maçãs se me disser onde Deus não está”. Nasceu nos bancos do catecismo seu ardente interesse pela doutrina sagrada, elemento essencial de toda vocação sacerdotal séria.
Concluídos seus estudos de seminário, seu espírito estava definitivamente aberto para a importância do ensino da Religião. Assim, como pároco de Salzano, lecionava pessoalmente o catecismo ao povo, convidando para ele os paroquianos, e explicando-lhes todos os males que decorrem da ignorância religiosa. “Conjuro-vos a que venhais ao catecismo”, dizia. E acrescentava: “antes faltar às Vésperas, do que faltar ao catecismo”.
Seu ensino era sério, fundo, meticuloso, mas muito interessante. Explicava a doutrina “com muita vitalidade e grande calor”. Inaugurou o método de dialogar o catecismo com um jovem sacerdote da Paróquia vizinha, o que atraia para suas aulas pessoas de toda a redondeza.
Como Cônego em Treviso, sobrecarregado de afazeres na chancelaria da cúria diocesana, e
São Pio X
O Pontífice no pavilhão de Pio IV
responsável pela direção espiritual de mais de 200 seminaristas, ainda achava meio de ensinar catecismo aos alunos do colégio episcopal.
À testa da diocese de Mântua, uma de suas maiores preocupações foi o ensino do catecismo. Era tema frequente de suas exortações ao clero ou aos fiéis. Estendeu-se particularmente sobre o modo e ocasião de ministrar a doutrina católica em sua Pastoral de 1885, ordenando que em todas as Paróquias se instituísse a Escola da Doutrina Cristã, mandando outrossim que o pároco ensinasse o catecismo ao povo nos domingos e dias de preceito, e diariamente para as crianças na quaresma e advento. E, acompanhando estas judiciosas medidas de ação positiva com algumas severas penas, segundo seu sábio costume, proibia que os confessores dessem absolvição às pessoas que impedissem seus filhos, ou criados, de comparecer às aulas de instrução religiosa sem justa causa.
A fim de estimular os párocos neste apostolado, comparecia ora nesta, ora naquela Paróquia, inesperadamente, certificando-se sobre se a aula estava sendo dada, e assistindo-a para se inteirar da capacidade do sacerdote.
Não haviam transcorrido dois meses de sua trasladação para Veneza, e já o novo Patriarca dirigia a seus diocesanos uma Pastoral em que falava largamente do catecismo e exclamava: “Acontece com frequência que pessoas instruídas nas ciências profanas ignoram totalmente ou conhecem mal as verdades da Fé, e conhecem menos o catecismo do que as crianças mais simples. Pense-se no bem das almas, que se tem em mira. O povo está sedento de verdade. Dê-se-lhe o necessário para a salvação de sua alma, e então, comovido e emocionado, chorará seus erros e se aproximará dos sacramentos divinos”.
Reorganizou ele imediatamente as escolas de catecismo paroquiais, ordenou aos párocos uma explicação mais assídua e sistemática da doutrina católica, promoveu com todas as suas forças a formação de melhores catequistas, e introduziu o ensino da Religião nas escolas municipais. Como em Mântua, aparecia ora numa igreja ora noutra, para observar como se ministravam as lições.
Como Papa, São Pio X deu ao orbe católico um exemplo magnífico, ensinando durante oito anos, pessoalmente, o catecismo ao povo romano no pátio de São Dâmaso, onde até hoje se assinala o ponto em que falava. Pode-se imaginar quão eficiente foi o incentivo deste exemplo, para dar impulso aos esforços catequéticos no mundo inteiro. Mas São Pio X não se contentou com isto. Na Encíclica Acerbo Nimis, de 15 de abril de 1905, mostrou em palavras pungentes o estado de ignorância religiosa em que se encontravam tantos fiéis: “É difícil descrever quanto são densas as trevas que envolveram inúmeros homens que se supõem cristãos e nesta crença vivem tranquilos. Neles não há o menor pensamento para Deus. Os mistérios da Encarnação do Verbo de Deus e da Redenção do gênero humano realizada por Jesus Cristo são coisas desconhecidas para eles. Nada sabem sobre o Sacrifício da Missa, nem os sacramentos pelos quais se adquire e conserva a graça de Deus, e não avaliam quanta malícia existe no pecado mortal. Por isto não se esforçam por evitá-lo nem deplorá-lo, e só se inteiram de algo quando estão chegando ao fim de sua vida”.
Depois de mostrar que a instrução religiosa é meio indispensável para o pleno aproveitamento dos frutos do Batismo, dispõe medidas para o incremento do ensino religioso em todo o orbe católico. Estas medidas, fruto de uma longa experiência, são em sua substância as mesmas já postas em vigor em Mântua e Veneza. O Santo Pontífice determinou nesse documento que também nas Universidades se estabelecessem “Escolas de Religião destinadas a promover o ensino das verdades da Fé e a formação da vida cristã”. O efeito desta Encíclica foi mundial. A preparação de catequistas leigos para suprir as deficiências do clero se desenvolveu imensamente, os congressos catequéticos, os concursos, os prêmios se multiplicaram. Os estudos sobre metodologia catequética floresceram. Foi uma aurora em toda a Igreja.
O ensino do catecismo, São Pio X não o concebia como coisa inerte, fria, puramente informativa. Desejava ele que fosse feito de maneira a acender o amor pela nossa santa Fé, e o zelo pela Lei de Deus. O seu empenho neste particular melhor se compreende estudando o modo de pregar de São Pio X.
Fonte: Catolicismo, Agosto de 2014.

sábado, 30 de agosto de 2014

SÃO PIO X — 1914 / 2014


Paulo Corrêa de Brito Filho

 
SÃO PIO X — 1914 / 2014         Comemora-se neste mês o centenário da morte do Papa São Pio X, canonizado por Pio XII em 1954. A revista Catolicismo (*), que ao longo de sua história sempre exaltou a figura e a obra daquele imortal Pontífice, não poderia deixar de fazê-lo nesta magna data, relembrando sua extraordinária estatura moral, que marcou profundamente o mundo e continua a marcá-lo até os presentes dias.
Para esse efeito a matéria de capa da edição deste mês reproduz textos selecionados do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira — inspirador e principal articulista de Catolicismo até seu falecimento em 1995 — sobre aquele santo varão, cujo pontificado (1904-1914) representa grande glória para a História da Igreja.
Na primeira parte, o leitor encontrará uma admirável síntese biográfica e o sentido profundo da obra do homenageado, ressaltando seu empenho em promover a devoção eucarística e o culto litúrgico, a instrução religiosa e catequética, bem como em defender os direitos da Igreja na esfera pública. É ressaltada também a benéfica ação sobrenatural exercida por São Pio X sobre aqueles que dele se aproximavam.
A segunda parte da matéria é dedicada a descrever a doutrina e os métodos empregados pela heresia modernista, condenada energicamente pelo santo Pontífice depois de baldados seus ingentes esforços para converter os líderes dessa corrente à ortodoxia católica.
Mediante a fulgurante Encíclica Pascendi dominici gregis, promulgada em 1907, São Pio X denunciou os fautores da conspiração modernista, que tentavam adulterar o Magistério tradicional da Santa Igreja e cujos erros disseminavam nos próprios ambientes da cidadela católica.
Ele desmascarou assim os fautores dos erros, denunciou suas táticas, revelou a extensão da conspiração, e estigmatizou a doutrina modernista como sendo a “síntese de todas as heresias”.
Infelizmente, com grande pertinácia, os modernistas rejeitaram submeter-se à autoridade da Igreja. O Papa então, para defender a Igreja e os fiéis, sentiu-se obrigado a condenar nominalmente os principais chefes do movimento.
A matéria reproduz também alguns trechos da Pascendi, os quais, além de apresentar aspectos da doutrina modernista, põem em evidência o péssimo estado de espírito dos hereges; e se detêm na explanação de sua tática de proselitismo, especialmente a dissimulação.
Nos dias de hoje, os católicos desejosos de se manterem fiéis à doutrina sempiterna da Igreja enfrentam um inimigo tão virulento e ardiloso como o modernismo: o progressismo católico, que apresenta claramente desvios modernistas adaptados às circunstâncias atuais. Assim sendo, devemos pedir instantemente ao glorioso Papa São Pio X que nos conceda sua firmeza doutrinária, sua energia e providencial perspicácia para discernir e rejeitar a investida do progressismo dito católico.
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(*) http://www.catolicismo.com.br/

Fonte: Catolicismo, Agosto de 2014

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Chamado ao Heroísmo!


Luís Felipe Escocard
                                

Ficar conectado a redes sociais, jogos e quinquilharias eletrônicos, sem falar de drogas e imoralidade, aparentemente são os grandes chamarizes para os adolescentes de nossos dias.
                                
Entretanto, não é bem assim. Por exemplo, 37 jovens resolveram dar as costas a essas tentações e participaram de mais um acampamento da Ação Jovem pela Terra de Santa Cruz, o oposto de tudo isso, com sua convocação para o heroísmo e a virtude.
Foi o que se passou entre os dias 18 e 21 de junho em Brasília. Houve 10 palestras, cinco para cada turma. Os mais novos conheceram os esplendores da Idade Média e uma síntese da obra Revolução e Contra-Revolução. Os efeitos nocivos do igualitarismo foi o tema para as reuniões da segunda turma, baseadas nos ensinamentos do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Pequenas peças teatrais ilustraram os temas.
Como entretenimento, além das competições e passeios, o que mais chamou a atenção dos jovens foram os jogos medievais, realizados à noite, sob a luz de inúmeras tochas e animados por trompetes, tambores e pífaros. Lança ao alvo, corrida de fogo e jogo da maça foram alguns dos desafios.

                                

“Foi sem dúvida o melhor acampamento de que participei”— declarou um dos rapazes. De fato, percebia-se o entusiasmo que uma programação inteligentemente baseada na doutrina católica tradicional suscita nas almas de jovens, que nunca tinham imaginado que algo assim pudesse existir. No meio do acampamento, se alguém perguntasse se não prefeririam estar jogando GTA, ou “postando” algo no Facebook ou no Twitter, ou ainda assistindo alguma novela na televisão, certamente seria alvo de risada ou de um bom e merecido debique...

Ideais e ruínas do passado na rota da Caravana Terra de Santa Cruz


Ivan Rafael de Oliveira
                    Fotos: Paulo Américo

Um menino gaúcho, de aproximadamente nove anos, caminhava pelo centro de sua tranquila cidade, quando de repente algo de inusitado chama sua atenção. Ao som de gaitas de fole, trompetes e pífaros, jovens portando grandes estandartes em estilo medieval circulavam pelas ruas, abordando respeitosamente os transeuntes para lhes oferecer suas publicações. Maravilhado, o menino pareceu esquecer o que fazia e passou a acompanhar os caravanistas. Mais à frente, outros meninos vieram chamá-lo às suas tarefas, ao que ele respondeu que não iria, pois queria continuar a ver a campanha. Demorou ainda algum tempo antes de destacar-se e voltar para casa.
Casos como o desse menino não são incomuns nas caravanas promovidas pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, denominadas Caravanas Terra de Santa Cruz. Pessoas de todas as idades, muitas vezes em centros agitados de grandes cidades ou em pequenos vilarejos por onde passam os caravanistas, vão comentando a surpresa desse atraente modo de atuação. Mal os jovens da caravana começam a entoar seus instrumentos nas praças, uma grande quantidade de câmeras e celulares saem dos bolsos de transeuntes para registrar o acontecimento.

                                


                                

Desta vez, entre os dias 25 de junho a 11 de julho, 36 caravanistas percorreram cidades dos estados de Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, para difundir duas obras do padre David Francisquini: Homem e mulher, Deus os criou e Catecismo contra o Aborto. Também, com ótima adesão do público, foi divulgado o livro Psicose Ambientalista, de autoria do príncipe D. Bertrand de Orleans e Bragança.
No Rio Grande do Sul, os jovens caravanistas puderam visitar as imponentes ruínas da missão espanhola de São Miguel Arcanjo e o local do martírio dos santos Roque González, Afonso Rodríguez e João de Castilho. O memorial desses mártires recorda o empenho com que um cristão deve lutar pelos ideais da Igreja.
                                
Curiosamente, a caravana passou também por uma outra ruína, mas esta teve um rumo em sentido oposto. Percorrendo a cidade de Palmeira, no Paraná, avista-se a indicação da Colônia Cecília, a mais antiga e infausta experiência de uma sociedade anárquica no Brasil.
Com efeito, em 1890, imigrantes italianos implantaram na região uma colônia nos moldes comunistas, oficialmente ateus, sem propriedade individual nem família. Através do “amor livre” e do não reconhecimento da paternidade, eles negavam os pilares de uma sociedade católica, que são a tradição, a família e a propriedade. Os quatro anos dessa experiência evidenciaram que tal modelo libertário não traz senão miséria, discórdias e desonestidades. Com a passagem da caravana, assim como sucedeu na época dos anarquistas, a população de Palmeira optou pelos ideais da família e da Lei de Deus.
Em apenas 18 dias, foram divulgados mais de 2.100 livros em 26 cidades. A sua poderá ser a próxima a ser visitada pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira. Caso deseje que isso aconteça, mande-nos uma mensagem através do site www.ipco.org.br, na seção Fale Conosco.
 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Considerações sobre cultura católica: em que consiste, como se adquire, suas deformações


Plinio Corrêa de Oliveira
 
 
 
 
 
Cultura é essencialmente conhecimento e amor da Verdade, do Bem e da Beleza. Mas por isto mesmo é também ódio ao erro, ao mal, ao feio. É, pois, impossível fazer obra cultural séria que não tenha um e outro aspecto. A Igreja ensina a Verdade, o Bem, e forma as almas para o Belo. Por isto mesmo combate implacavelmente o erro e o mal, e é incompatível com o feio. Neste quadro de Berruguete (séc. XV), São Domingos de Gusmão manda lançar às chamas os livros católicos e os infectados da heresia albigense. Os primeiros são poupados pelo fogo e os outros são extinguidos pelas mesmas chamas.
Atendendo ao pedido constante de carta que publicamos em outro local (*), reroduzimos a seguir a conferência que nosso colaborador Prof. Dr. Plinio Corrêa de Oliveira proferiu a 13 de novembro do ano findo no Seminário Central de S. Leopoldo, Rio Grande do Sul, a convite do Revmo. Pe. Leonardo Fritzen, S. J., Reitor daquela Casa: 
Agradeço emocionado, a saudação amável do ilustre Reitor desta Casa, e o acolhimento afetuoso que de vós estou recebendo. 
A atmosfera que aqui se respira evoca anos saudosos e fecundos de minha vida, os tempos já distantes em que cursava o Colégio S. Luiz, de São Paulo. Passando quase todo o meu curso secundário em convívio com a Companhia de Jesus, meu espírito se voltou desde cedo para a consideração dos valores espirituais que Santo Inácio legou à sua milícia, minhas primeiras lutas espirituais foram travadas sob a influência dos Exercícios, abriu-se na Congregação a minha alma para a piedade mariana, entusiasmou-se meu coração no estudo do que pela Igreja fizeram os Santos que na Companhia floresceram, e alentou-se minha vontade na devoção ao Sagrado Coração de Jesus, que Jesuítas eminentes haviam propagado por todo o Brasil. Posso dizer com sinceridade que quanto mais vivo, tanto mais se radica em mim a veneração a todos estes valores. Compreendereis pois facilmente, quanto me sinto tocado num ambiente como este, em que me é fácil discernir nos mestres, nos alunos, por assim dizer no ar e nos próprios muros aquela influência formativa que modelou em seus albores e em suas camadas mais internas o meu próprio espírito. 
Ademais, estou aqui num Seminário, e considerando-vos, a vós, jovens, que por vocação divina ireis servir a Santa Igreja nas fileiras sagradas do Clero, chamados alguns para a vida religiosa em Institutos beneméritos, e a grande maioria para as nobres lides do Clero secular, não posso deixar de me sentir empolgado. Como bem acentuou o Revmo. Pe. Reitor, em vossas fileiras está representado quase todo o Brasil, desde as margens do Amazonas até as cochilhas gloriosas deste Rio Grande, passando pelo indômito Pernambuco, terra de meus maiores, e pelo São Paulo invicto, minha terra natal. Deixastes lares, esperanças terrenas, prazeres, riquezas talvez, para vos preparardes para o serviço de Deus. Vosso sacrifício é grande por certo, mas vossa missão ainda maior. Nosso país vive em circunstâncias que colocam nas mãos do Clero - muito mais nitidamente do que em outras épocas - não só o destino eterno de nossos contemporâneos, mas de certo modo o de muitas e muitas gerações vindouras, e ipso facto a grandeza da pátria brasileira nos séculos que estão por vir. Não é preciso dizer mais, para vos manifestar com quanta simpatia vos vejo aqui reunidos, ávidos de ouvir uma palavra para a qual a generosidade do Pe. Reitor suscitou uma expectativa imerecida. Acabo de me referir à grandeza de vossa vocação, excelsa em todos os tempos mas tão particularmente grande nos dias que correm. Isto me conduz naturalmente ao tema que foi proposto para minha palestra, a cultura católica. Comecemos pois a considerá-lo. 
*      *      * 
O que é a cultura? A esta pergunta, têm sido dadas respostas bem diversas, inspiradas umas na filologia, outras em sistemas filosóficos ou sociais de toda sorte. Tal é o cipoal de contradições que em torno deste vocábulo, e outro conexo, que é "civilização", se estabeleceu, que congressos internacionais de sábios e professores se têm especialmente reunido para lhes definir o conteúdo. Como sói acontecer, de tanta discussão não nasceu a luz... 
Não seria possível na exigüidade desta palestra enunciar as teses e os argumentos das diversas correntes, afirmar por sua vez nossa tese e justificá-la, para tratar depois da cultura católica. Entretanto, podemos considerar seriamente o assunto, tomando a palavra "cultura" nos mil significados de que ela se reveste na linguagem de tantos povos, classes sociais e escolas de pensamento, e começando por mostrar que em todas estas acepções a "cultura" contém sempre um elemento basilar invariável, isto é, o aprimoramento do espírito humano
No âmago da noção de aprimoramento, está a idéia de que todo homem tem em seu espírito qualidades susceptíveis de desenvolvimento, e defeitos passíveis de repressão. O aprimoramento tem pois dois aspectos: um, positivo, em que significa crescimento do que é bom, e outro negativo, ou seja, a poda do que é mau
Muitos modos de pensar e de sentir correntes, a respeito da cultura, se explicam à vista deste princípio. Assim, não temos dúvida em reconhecer o caráter de instituição cultural a uma universidade, a uma escola de música ou teatro, ou mesmo a uma sociedade destinada ao fomento do jogo de xadrez ou da filatelia. É que estas entidades ou grupos sociais têm como objetivo direto o aprimoramento do espírito, ou pelo menos visam fins que de si aprimoram o espírito. Entretanto, podemos conceber uma universidade, ou outra instituição cultural, que trabalhe virtualmente contra a cultura, o que se dá quando, pelo efeito de erros de qualquer ordem, sua ação deforma os espíritos. Poder-se-ia por exemplo fazer esta afirmação a propósito de certas escolas que, levadas de um entusiasmo exagerado pela técnica, incutem em seus alunos o desprezo por tudo quanto é filosófico, ou artístico. Um espírito que adora a mecânica como valor supremo e faz dela o único firmamento da alma, nega toda certeza que não tenha a evidência das experiências de laboratório e rejeita desdenhosamente todo o belo, é sem dúvida um espírito deformado. Como deformado seria o espírito que, movido por um apetite filosófico imoderado, negasse qualquer valor à musica, à arte, à poesia, ou mesmo a atividades mais modestas mas que também exigem inteligência e cultura, como a mecânica. E de universidades que plasmassem segundo alguma destas orientações falsas os seus alunos, diríamos que exercem uma ação anti-cultural, ou propagam uma falsa cultura.
Na acepção corrente, reconhece-se que jogar esgrima é um exercício de certo valor cultural, porque supõe qualidades de destreza física, vivacidade de alma, elegância. Mas o senso comum se mostra intenso a reconhecer caráter cultural ao box, que tem em si algo de aviltante para o espírito, pelo fato de ter por alvo de golpes maciços e brutais a face do homem. Em todas estas acepções, e em tantas outras ainda, a linguagem corrente inclui na noção de cultura a idéia de aprimoramento da alma.
 
Cultura e instrução 
À primeira vista é menos clara, no conceito geral, a distinção entre instrução e cultura. Mas, bem analisadas as coisas, vê-se que tal distinção existe, e repousa sobre um fundamento sólido. 
Diz-se de uma pessoa que leu muito, que é muito culta, pelo menos comparativamente a outra que lê pouco. E, entre duas pessoas que leram muito, a que mais leu presume-se ser a mais culta. Como de si a instrução aprimora o espírito, é natural que, salvo razões em contrário, se repute mais culto quem for mais lido. O perigo de um erro neste assunto nasce do fato de que muitas pessoas simplificam inadvertidamente as noções e chegam a considerar a cultura como mera resultante da quantidade de livros lidos. Erro palmar, pois a leitura é proveitosa, não tanto em função da quantidade como da qualidade dos livros lidos, e principalmente em função da qualidade de quem lê, e do modo por que lê
Em outros termos, em tese a leitura pode fazer homens instruídos: tomamos aqui a palavra instrução no sentido de mera informação. Mas uma pessoa muito lida, muito instruída, ou seja, informada de muitos fatos ou noções de interesse científico, histórico ou artístico, pode ser bem menos culta do que outra de cabedal informativo menor.
 
O rato de biblioteca (Der Bücherwurm), pelo pintor alemão Carl Spitzweg (1808-1885)
É que a instrução só aprimora o espírito em toda a medida do possível, quando seguida de uma assimilação profunda, resultante de acurada reflexão. E por isto quem leu pouco, mas assimilou muito, é mais culto do que quem leu muito e assimilou pouco. Em via de regra, por exemplo, um guia de museu é muito instruído dos objetos que deve mostrar aos visitantes. Mas não raras vezes ele é pouco culto: limita-se a decorar, e não procura assimilar. 
 
Como se adquire a cultura 
Tudo quanto o homem apreende com os sentidos ou a inteligência, exerce um efeito sobre as potências de sua alma. Deste efeito, uma pessoa pode libertar-se mais, ou menos, ou até inteiramente, conforme o caso, mas em si cada apreensão tende a exercer sobre ela um efeito. 
Como já dissemos, a ação cultural consiste positivamente em acentuar todos os efeitos aprimoradores, e negativamente em frear os outros. 
Bem entendido, a reflexão é o primeiro dos meios desta ação positiva. Mais, muito e muito mais do que um rato de biblioteca, um repositório vivo de fatos e datas, nomes e textos, o homem de cultura deve ser um pensador. E para o pensador o livro principal é a realidade que ele tem diante dos olhos; o autor mais consultado, ele próprio, e os demais autores e livros, elementos preciosos mas nitidamente subsidiários
Contudo a mera reflexão não basta. O homem não é puro espírito. Por uma afinidade que não é apenas convencional, existe um nexo entre as realidades superiores que ele considera com a inteligência, e as cores, os sons, as formas, os perfumes que atinge pelos sentidos. O esforço cultural só é completo quando o homem embebe todo o seu ser, por estas vias sensíveis, dos valores que sua inteligência considerou. O canto, a poesia, a arte têm exatamente este fim. E é por um acurado e superior convívio com o belo (retamente entendida a palavra, é claro) que a alma se embebe inteiramente da verdade e do bem. 
Juízo final (Fra Angelico)
Cultura Católica 
Para que uma cultura esteja alicerçada sobre bases verdadeiras, é pois necessário que contenha noções exatas sobre a perfeição do homem - quer nas potências da alma, quer nas relações desta com o corpo - sobre os meios pelos quais ele deve alcançar esta perfeição, os obstáculos que encontra, etc. 
É bem de ver que a cultura, assim conceituada, deve ser toda ela nutrida pela seiva doutrinária da Religião verdadeira. Pois é à Religião que compete ensinar-nos no que consiste a perfeição do homem, a via para alcançá-la, e os obstáculos que se lhe opõem. E Nosso Senhor Jesus Cristo, personificação inefável de toda a perfeição, é assim a personificação, o modelo sublime, o foco, a seiva, a vida, a glória, a norma, e o encanto da verdadeira cultura. O que equivale a dizer que a cultura verdadeira só pode ser baseada na verdadeira Religião, e que só da atmosfera espiritual criada pelo convívio de almas profundamente católicas pode nascer a cultura perfeita, como o orvalho se forma naturalmente da atmosfera sadia e viva da madrugada. 
Isto se demonstra também à luz de outras considerações. 
Dizíamos pouco antes que tudo quanto o homem vê com os olhos do corpo ou os da alma é susceptível de o influenciar. Todas as maravilhas naturais de que Deus encheu o universo são feitas para que ao considerá-las a alma humana se aprimore. Mas as realidades que transcendem os sentidos são intrinsecamente mais admiráveis do que as sensíveis. E se a contemplação de uma flor, uma estrela ou uma gota de água pode aprimorar o homem, quanto mais o pode fazer a contemplação do que a Igreja nos ensina sobre Deus, seus Anjos, seus Santos, o Paraíso, a graça, a eternidade, a Providência, o inferno, o mal, o demônio, e tantas outras verdades
A imagem do Céu na terra é a Santa Igreja, a obra prima de Deus. A consideração da Igreja, seus dogmas, seus Sacramentos, suas instituições, é por isto mesmo um supremo elemento de aprimoramento humano. Um homem que, nascido nos subterrâneos de alguma exploração de minério, nunca tivesse visto a luz do dia, perderia com isto um elemento de enriquecimento cultural precioso, e quiçá capital. Muito mais perde, culturalmente, quem não conhece a Igreja, da qual o sol não é senão uma figura pálida no sentido mais literal deste adjetivo. 
Entretanto há mais. A Igreja é o Corpo Místico de Cristo. Circula nela a graça, que nos vem da Redenção infinitamente preciosa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pela graça, o homem é elevado à participação da própria vida da Santíssima Trindade. Basta dizer isto, para afirmar o incomparável elemento de cultura que a Igreja nos dá abrindo-nos as portas da ordem sobrenatural
O mais alto ideal de cultura está pois contido na Santa Igreja de Deus.
 
Interior da mesquita de Córdoba, hoje Catedral católica
Culturas não católicas 
Pode o homem elaborar fora da Igreja uma cultura verdadeira? Distingo. 
Ninguém poderia afirmar que os egípcios, os gregos, os chineses não foram possuidores de autênticos e admiráveis elementos de cultura. Entretanto, é inegável que a cristianização do mundo clássico veio propiciar a este valores culturais muito mais altos
S. Tomás ensina que a inteligência humana pode, de per si, conhecer os princípios da lei moral, mas que em conseqüência do pecado original os homens facilmente se desviam do conhecimento desta lei, pelo que se tornou necessário que Deus revelasse os Dez Mandamentos. Ademais, sem o auxílio da graça ninguém pode praticar duravelmente na sua íntegra a Lei. E se bem que a graça seja dada a todos os homens, sabemos que os povos católicos, com a superabundância de graças que recebem na Igreja, são os que conseguem praticar todos os Mandamentos. 
De outro lado, uma sociedade humana só está em seu estado normal quando a generalidade de seus membros observa a lei natural. E daí se segue que, se bem que povos não católicos possam ter produções culturais admiráveis, são sempre gravemente falhos em alguns pontos capitais, o que tira à sua cultura a integridade e plena regularidade, pressuposto necessário de tudo quanto é exímio ou mesmo simplesmente normal. 
A cultura verdadeira e perfeita só na Igreja se encontra
Sainte Chapelle (andar superior), em Paris, mandada construir por São Luís IX, Rei de França, para abrigar a Coroa de espinhos posta na sagrada Cabeça de Nosso Senhor, durante a Paixão
Ireis, meus caros Seminaristas, plasmar para a Religião verdadeira e pois para a plenitude da cultura, este nosso povo jovem, de imensos recursos inaproveitados, a quem tocará a liderança do mundo futuro, por alguns séculos certamente. Estes séculos, esta influência mundial serão de Cristo, Senhor Nosso, se fordes Padres segundo o Coração de Jesus, inteiramente formados na escola de Maria
Tudo quanto vos acabo de dizer redunda em afirmar quanto reverencio vossa esplêndida missão, o muito que de vós espera meu coração de católico, o muito que vos amo por terdes deixado tudo para seguir esta gloriosa vocação
Ajude-vos Maria Santíssima a implantar em nossa pátria sua realeza recentemente proclamada pelo Sumo Pontífice: ut adveniat regnum Christi, adveniat regnum Mariae
Melhores votos não vos poderia apresentar como católico, como brasileiro, como amigo! 

(*) A respeito da conferência do Prof. Dr. Plinio Corrêa de Oliveira que publicamos neste número, recebeu esta folha a seguinte carta altamente expressiva, assinada por 56 alunos do Seminário Central de S. Leopoldo: 
"Sr. Redator 
Os infra-assinados vimos pedir a V. S. o favor de inserir oportunamente nas colunas de CATOLICISMO a notável conferência, que a todos nos empolgou, do Prof. Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, proferida no salão nobre do Seminário Central de S. Leopoldo, aos 13 de novembro deste ano. Esse impressionante trabalho versou sobre a Cultura no seu sentido mais vasto e profundo, e nele se espelhou, uma vez mais, o seguro e penetrante saber social, histórico, filosófico e teológico do grande colaborador de CATOLICISMO, que nos honrou com sua visita e nos edificou com sua palavra. Muito gratos."